Fim de Expediente
Eram 19h32min, e Ricardo Albuquerque Pereira estava cansado. Cansado e com fome.
Aquele dia foi particularmente difícil no escritório, e todos estavam estressados, principalmente o chefe, Paulo Duarte Antônio Vieira. Diziam que estava constipado, e outros diziam que foi alguma traição que sofrera de algum sócio. O que se sabe é que Paulo atormentou a vida de todos naquela última quarta-feira de novembro.
Enquanto descia de elevador, Ricardo não pensou em mais nada. A voz aguda de seu chefe se desfez em sua memória e tudo o que conseguiu imaginar era o lanche que faria. Perto de seu ponto de ônibus existia uma dessas lanchonetes de franquia famosa. Os preços eram, para padrões brasileiros, bem caros, mas Ricardo já havia recebido o seu vale-refeição. Ele quis se dar ao luxo de gastar dinheiro com um bom sanduíche de procedência duvidosa.
Entrou feliz no recinto e todos o olharam com pesada indiferença. Apesar do incômodo, o rapaz foi direto ao caixa, já que os totens de autoatendimento estavam quebrados. Marcela Padrão Oliveira, a atendente, tinha uma face cansada e entediada. Suas olheiras estavam enormes e ela forçava um sorriso de falsa simpatia. Ricardo fez menção de perguntar se estava tudo bem, mas desistiu da ideia e fez logo o seu pedido. Pegou a bandeja e, em poucos minutos, já degustava o seu saboroso sanduíche.
Cada mordida era um paraíso e seu corpo agradeceu. No entanto, quando foi dar a quarta mordida, percebeu que algumas pessoas o observavam de um modo estranho. O rapaz deu de ombros e olhou para a TV do local. O jornal mencionava alguma coisa sobre o fim do trabalho humano e sobre os impactos disso nas economias globais. Enquanto mastigava, Ricardo soltou um risinho e balançou a cabeça. Foi nesse momento que um homem magrelo se sentou ao seu lado.
— Está tudo bem? — perguntou Ricardo ao estranho, que o olhava fixamente. — Homem, está tudo bem? Você quer um pedaço do meu sanduíche? Quer que eu te pague alguma coisa?
— Você devia ter vergonha! — começou o estranho — Olha só isso! Tudo sujo! Olha! Olha! Tudo caindo aí! Tu devia saber comer que nem gente!
— Tu é maluco?! Tô aqui numa boa, lanchando, e tu vem, do nada, me falar bobagem?
— Mas olha a sujeira da tua bandeja! Olha! Tu acha que é assim que se come?
— Amigo, por favor, me deixa em paz! Tive um dia pesadíssimo e tu tá de sacanagem com a minha cara. Será que você pode me deixar em paz? — Após essa fala, o estranho começou a chorar em silêncio. Ricardo ficou de boca aberta, sem acreditar.
— Então é isso?! A gente vem aqui e tenta ajudar o próximo, e tudo o que a gente consegue é ofensa e grosseria. Eu… eu tentei te ajudar! Eu só queria que você me ouvisse!
— Moço, será que você pode falar mais baixo? Eu só estou tentando matar a minha fome… Se você quiser…
— EU NÃO QUERO NADA! — De repente o estranho se levantou e correu para fora da loja, aos prantos. Todos olharam com reprovação para Ricardo.
— Mas gente… eu não fiz nada…
Então, uma certa Deise Camargo Soares, que estava com seu namorado, respondeu para Ricardo: — Você é uma vergonha mesmo! Que maldade! Aquele moço só queria te ajudar.
— Me ajudar com o quê? Dizendo como eu devo comer meu sanduíche?
— Ei! Ei! Ei! — interveio o namorado, Lucas Sampaio Correa — Olha como tu fala com minha namorada!
— Mas eu nem ofendi ninguém! E depois, vocês estão se metendo onde não foram chamados!
— Grosso! — Gritou Deise, que também saiu chorando da loja. Lucas se levantou para ir atrás de Deise, porém, disse para Ricardo:
— Tu deve ser um monstro mesmo! Da próxima vez… Amor! Espera!
Ricardo não estava acreditando no que acabou de ver. Ele poderia ficar aborrecido, mas estava cansado demais para isso. Respirou fundo e voltou a comer. Quando estava perto de terminar o seu lanche, Marcela lhe tocou o ombro.
— Calma! — pediu Marcela para Ricardo, que apenas virou o rosto para ver quem era — Vejo que o senhor está meio exaltado e… e está causando um certo desconforto nos clientes. Está vendo aquela mãe com a sua filha? As duas estão com medo do senhor.
Ricardo estava abismado.
— Moça, eu não estou fazendo nada demais. Eu só estou comendo meu lanche. Meu Deus do céu, o que está acontecendo?
— Olha, senhor, se continuar assim vou ter que pedir para o senhor sair da loja. Assim não está dando…
— Mas eu não tô fazendo nada demais!
— Por favor, senhor… saia.
O jovem estava em choque. Levantou-se, meio sem graça, e os rostos silenciosos acompanharam a sua saída. Caminhou até o seu ponto de ônibus tentando entender o que aconteceu. Enquanto pensava, seu transporte apareceu. O motorista, assim que viu Ricardo, perguntou:
— Dia difícil?
— Dia estranho, cheio de gente maluca!
— Amigo, estranho seria se o dia estivesse normal com gente sã! — Ricardo levantou uma das sobrancelhas ao ouvir aquilo. — Vê só: outro dia disseram que teve uma invasão alienígena na Terra! Vê se pode! Trabalho todo dia, desde as 04 da manhã até as 04 da noite! E tô aqui, levando e trazendo gente bizarra! Todo santo dia! Vá! Vá sentar, meu jovem! Porque o piloto aqui tá com pressa!
Ricardo se sentou ao lado de uma senhorinha que fazia crochê, dona Jacinta Gonçalves Amanso. Ela o olhou de cima abaixo e logo se levantou, indo para outro lugar. O jovem cogitou que sua aparência deveria estar horrível. Olhou-se no celular, e estava normal. Suspirou e viu que o motorista estava realmente pisando fundo no acelerador. Então pensou no que ele havia dito sobre invasão alienígena. O rapaz achava aquilo um absurdo. De fato, se lembrava de algumas notícias sobre uma crise mundial há alguns meses. Mas isso era normal; o mundo está sempre em crise. No entanto, alienígenas? Isso era demais. Enquanto pensava nisso, acabou adormecendo.
Acordou perto de sua parada. O ônibus estava quase vazio e parecia ter atravessado o país inteiro. O motorista cantava uma canção bizarra e parecia se divertir ao volante. Ricardo fez sinal e desceu, pontualmente às 21h32min. Olhou o relógio e suspirou. O ano já estava terminando e o próximo prometia mudanças ainda mais esquisitas. Pensou em marcar um médico, pois sentiu que algo poderia estar errado. Porém, tudo parecia em ordem; era o mundo que andava bizarro e mais estressado que o de costume. Aquele foi só mais um dia. Na manhã seguinte tudo começaria novamente: um novo expediente, semelhante a todos os outros.



